"Incerteza. Medo. Pânico. Abrandamento económico. Recessão iminente. À primeira vista estão reunidos os condimentos para o êxodo dos investidores das bolsas, para desvalorizações das acções e para o aumento da aversão ao risco e da volatilidade.Para não perder dinheiro, os investidores podem refugiar-se em cash, através de depósitos, em fundos de investimento descorrelacionados com os mercados, ou em títulos de natureza mais defensiva. Por outro lado, os analistas recomendam a aposta em large caps (empresas de elevada capitalização), de preferência expostas a diversos mercados, principalmente os emergentes, ou em acções que ofereçam dividendos elevados. Estratégias que procuram anular ou minimizar as perdas em períodos de grande instabilidade nos mercados accionistas. Há ainda especialistas que aconselham os investidores a entrar a pouco e pouco no mercado de acções, a classe de activos historicamente mais rentável. Mas, para além de não perder dinheiro, como tirar partido das quedas para aumentar os ganhos?De risco puro a hedging puro. Segundo diversos brokers, as quedas nas bolsas não significam necessariamente perdas nas rendibilidades. Existe um conjunto de instrumentos financeiros que permite apostar nas quedas dos mercados para ganhar dinheiro (ver caixa ao lado). O responsável pela área de gestão de activos da Luso Partners refere-os: “Opções, contract for difference (CFD), warrants e futuros são os quatro instrumentos que permitem fazer isso”. Entre estes, o director da Orey Valores, Pedro Borges, e o administrador da Dif Broker, Paulo Pinto, preferem os CFD. “As melhores estratégias são sem dúvida os CFD porque não têm maturidade (não há um momento para fechar posições), não têm strike (preço de exercício) e têm sensivelmente a mesma alavancagem que as opções ou os warrants”. Os mesmos motivos são apontados por Pedro Borges. O responsável acrescenta que é o mercado que faz o processo e define o preço. Pedro Borges classifica o produto como “o mais eficiente” e explica como funcionam: “O CFD é como uma acção, mas permite entrar curto e manter essa posição enquanto se quiser”. Na gíria, o “estar curto” ou shortar significa tomar uma posição que permita lucrar com a queda dos activos, mas que tem o risco de incorrer em perdas caso a cotação do activo suba. E, nestes instrumentos derivados, pode haver recurso a alavancagem até dez vezes para CFD de acções e até 20 vezes para CFD de índices, o que potencia os ganhos, mas também acarreta o risco de multiplicar as perdas. No entanto, Paulo Pinto afirma que “não há remédios milagrosos na actuação do investidor no mercado. Aquilo que é mais importante é saber qual a direcção do mercado”. O que não é tarefa fácil. Daí que este tipo de instrumentos possa ser utilizado como uma vertente de hedging, ou seja, de cobertura do risco. Nuno Serafim afirma que “todas as estratégias que permitam a facilidade de hedging são positivas e de aproveitar em situações como a actual”. Ressalva, no entanto, que “é necessário as pessoas conhecerem bem os produtos, já que são mais sofisticados que os produtos normais”. Muitas plataformas de negociação online disponibilizam uma demonstração, onde se pode experimentar negociar estes instrumentos com dinheiro fictício.Cobrir as carteiras. Pedro Borges observou que dada a instabilidade e as quedas nos mercados, muitos clientes começaram a abrir posições curtas desde 20 de Janeiro. A ideia é a seguinte: “Se tiver uma carteira de acções da qual não me quero desfazer, posso replicar a minha carteira através de posições curtas”, para compensar as descidas. O responsável da Orey Valores afirma que um dos títulos onde se notou mais a utilização destas estratégias foi na Sonae SGPS, já que as quedas foram muito fortes. “Os investidores ou conseguem sair quando ainda vão a tempo de amenizar as perdas, ou então começam a entrar em CFD”. Para Paulo Pinto “a protecção da carteira é exactamente como um seguro: tem sempre que ter um custo”. Adianta que “o nível de protecção de uma carteira depende daquilo que as pessoas perspectivam em relação ao futuro do mercado e aquilo que pretendem ter como protecção para que se sintam confortáveis no mercado”. No entanto, entende que “a protecção da carteira é um factor importante para quem tem carteiras grandes que não sejam suficientemente ágeis na negociação do mercado”. Já para “quem tiver 100 acções em carteira não tem que estar preocupado em proteger a carteira, mas sim em saber para que lado vai o mercado”.Outra forma de tentar obter ganhos com as quedas, mas sem se ter de dominar este tipo de instrumentos é, segundo Nuno Serafim, a exposição a hedge funds. “São um dos poucos veículos em que se pode ganhar dinheiro em momentos de mercado menos bons porque são muito sofisticados e utilizam todo este tipo de estratégias para ganhar dinheiro”, justifica. Mercados em queda, ganhos em alta?"
Opinião de Catarina Melo e Rui Barroso, no Semanário Económico, em 11-02-2008
Opinião de Catarina Melo e Rui Barroso, no Semanário Económico, em 11-02-2008
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